Christopher Morley, jornalista, escritor e poeta norte-americano que nasceu em 1890 tendo falecido em 1957, escreveu, grosso modo, que ‘existe no coração de todos os homens um nervo secreto que reage às vibrações da beleza feminina.’ Existe sim, senhor. E confirma-se: é tudo uma questão de nervos.
domingo, 27 de Dezembro de 2009
Uma questão de nervos
Blog: escrevo porque existo

O B. é meu amigo. E gostamos sempre de ouvir os nossos amigos embora nem sempre concordemos com eles. Desta vez concordei com tudo o que ele disse. Afinal, o que é natural e simples para mim para outros pode ser complicado e de difícil percepção. E depois sempre tive a noção que a minha loucura, a existir, está mais presente naquilo que não digo que naquilo que divulgo. Mas, se alguém precisar dela, tenho até uma desculpa para esta verborreia com que brindo quem aqui passa e me lê. É que neste blogue pratica-se um bem indispensável: o da liberdade. E eu posso ser mais ou menos do que aquilo que aqui escrevo, mas o que aqui escrevo é também parte essencial de mim. E a este propósito dá-me jeito relembrar Agostinho da Silva quando este na sua imensa sabedoria afirmou ‘que só podemos ser nós mesmos se formos de tudo ou de nada.’
A cinefilia das pulsões
Leio e releio: ‘De um ponto de vista psicanalítico, considerou-se que a cinefilia tem por base duas pulsões complementares: a pulsão escópica (escoptofilia) e a pulsão invocante.’ Até aqui tudo bem, mas não paro na leitura: ‘A relação com o seu objecto é do domínio do fascínio.’ Sem dúvida, mas o teórico conclui dizendo que ‘a relação entre o cinéfilo e o cinema raramente é compatível com o desejo de saber e de análise que, por sua vez, tem origem na pulsão sádica.’ Ok, como cinéfilo inveterado não só fiquei orgulhoso como me sinto esclarecido. Puxei do bolso da camisa dois amarelos e um vermelho directo. Em seguida apitei e mandei tudo para intervalo. Tempo de descanso.
Emoção e teoria
Leio em algum lado que a emoção não é mais que um estado afectivo que transforma, perante algo e por um instante, a nossa relação com o mundo. Em termos psicanalíticos pode mesmo descrever-se a emoção como algo muito próximo dos processos primários do indivíduo. Dito de outra forma, a emoção pode ser entendida de um modo muito radical como uma disfunção, uma fragilidade, uma perda de capacidade do sujeito. Peguei no livro onde deparei com estas conclusões e deitei-o no lixo. Confesso, fi-lo num claro sentimento de desprezo pela teoria. Mas emocionei-me ao fechar a tampa do contentor.
Sherlock Holmes, o filme

O Sherlock Holmes de Guy Ritchie: Os músculos no lugar dos neurónios
Para quem seja fã do Sherlock Holmes que Sir Arthur Conan Doyle trouxe para o mundo da literatura e dos detectives, esqueça este «Sherlock Holmes» do realizador britânico Guy Ritchie. Porque o introvertido mas arrogante e cerebral Holmes que habita o Nº 221 da Baker Street, em Londres, transformou-se num herói de acção, musculado e lutador entre outros atributos físicos que se sobrepõem às suas excepcionais capacidades dedutivas. Facilmente será pois de concluir que o filme do britânico que realizou em 2000 «Snatch – Porcos e Diamantes», na minha opinião uma das melhores comédias de sempre, e que fizera recair sobre si os olhos dos cinéfilos de todo o mundo com a sua longa-metragem inaugural «Um Mal Nunca Vem Só» (1998), chutou para canto a personagem da literatura que dá nome ao filme e criou uma outra fruto do seu espírito inventivo e dos argumentistas ao seu serviço.
Poder-se-ia mesmo falar em publicidade enganosa não fosse dar-se o caso de andar pelo filme um tal de Dr. Watson (Jude Law) fiel ao original e ao seu amigo Holmes (Robert Downey Jr.) e a igual presença do pobre Inspector Lestrade (Eddie Marsan) que surge como o irremediável polícia incompetente e apalermado perante a destreza mental (e física) do seu rival da investigação privada. Também a predilecção pelo boxe por parte de Sherlock Holmes (e tão do agrado de Ritchie) e a sua paixão pelo violino não são esquecidos pela realização, o que traz ao filme um pouco do aroma dos livros.
A história inicial anda à volta dos assassinatos de belas e jovens virgens por parte de um tal Lord Blackwood (Mark Strong) com recurso à magia negra e desenvolve-se em redor de uma organização secreta com fundações no mundo da política a que o assassino aspira presidir. Pelo meio, a bela Irene Adler (Rachel McAdams) traz para a trama o elemento feminino, ela que é uma mulher atraente mas sinuosa que dribla o desejo que o detective Sherlock tem por si enganando-o sem dó nem piedade sempre que existe essa possibilidade apesar de ser o indefectível amigo Watson de quem Holmes não prescinde de modo algum. E que o diga a bela Mary (Kelly Reilly), a resistente noiva do médico antigo combatente de guerra.
Em resumo, aquilo que Guy Ritchie apresenta aos espectadores não passa de entretenimento puro e duro. Uma opção concepcional que resulta a espaços mas que acaba por se tornar aborrecida em certos momentos devido ao uso e abuso do estardalhaço mais de acordo com um espectáculo pirotécnico do que com um filme de bandidos, polícias e detectives de finais do Séc. XIX e inícios do Séc. XX. E se o espírito de Arthur Conan Doyle surge um pouco arredio da sua realização, já o seu próprio estilo muito mais adequado para filmar o submundo britânico em detrimento de dar a conhecer as aventuras de um investigador extraordinariamente inteligente mas arrogante em igual medida, acaba por vir ao de cima. Sobretudo nas cenas de luta, com especial ênfase no boxe e em alguns slow-motion a antecipar o decurso das cenas. É justo frisar ainda que o elenco no activo não terá defraudado as expectativas do peculiar realizador, com destaque especial para Jude Law. Parece-me no entanto muito pouco para uma super-produção que se usou de uma das personagens míticas da literatura policial para obter logo à partida um sucesso mediático que esteve longe de concretizar.
«Sherlock Holmes», de Guy Ritchie, com Robert Downey Jr. e Jude Law
quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009
segunda-feira, 21 de Dezembro de 2009
A verdade da mentira
M., dez anos de idade, um sorriso feliz desenhado num rosto de menina. Olha-me atentamente, fixa o seu olhar em mim, investiga para lá do que vê e faz a pergunta incómoda: ‘já alguma vez mentiste?’ Fiquei sem pinga de sangue, hesitei. Mas não, se já alguma vez mentira não era aquela a altura para repetir o meu constrangedor delito. Respondi-lhe com o meu melhor sorriso em tão difíceis circunstâncias. ‘Já, já menti.’ Ela não acreditou e riu-se com vontade voltando para o seu mundo povoado de inocência. Percebi então que lhe dissera a verdade parecendo que mentia. Senti-me duplamente mal.
domingo, 20 de Dezembro de 2009
O Monte dos Vendavais, Um

É sempre muito arriscado aconselhar um livro ou um filme a alguém cuja forma de estar, pensar e sentir não dominamos. Há dias uma pessoa com quem não tenho muita afinidade pediu-me que lhe aconselhasse um livro que tivesse sido adaptado ao cinema e também o filme que resultou do livro. Segundo essa pessoa, teria que ser uma história dramática que envolvesse uma relação amorosa. Ainda pensei em aconselhar o «Doutor Jivago», obra maior escrita por Boris Pasternak e levada ao cinema por David Leane. Mas achei que talvez fosse um conselho óbvio de mais e eu próprio acabei por lhe emprestar «O Monte dos Vendavais» saído da genialidade de Emily Brontë e adaptado ao cinema por Peter Kosminsky. Esta manhã, enquanto desenferrujava as pernas numa curta corrida junto a minha casa, essa pessoa veio ter comigo com o livro e o DVD nas mãos. Fiquei um pouco receoso de ter causado alguma decepção com o meu conselho. Mas não. Depois de me ter colocado nas mãos as duas obras, percebi não só pelo que me foi dito como pelo sentimento expresso nessas palavras que Emily Brontë e Peter Kosminsky tinham causado um efeito emocionalmente devastador na minha interlocutora.
O Monte dos Vendavais, Dois

«O Monte dos Vendavais» foi escrito pela britânica Emily Brontë em 1847 e levado ao cinema por Peter Kosminsky em 1992, como é sabido. A obra relata o conflito de duas gerações das famílias Earnshaw e Linton e o amor avassalador, trágico, entre as personagens Heathcliff (interpretado de forma soberba por Ralph Fiennes no cinema) e Catherinne (uma fascinante Juliette Binoche no filme). Embora levado ao extremo em termos de dramatismo, trata-se de um retrato fiel da vida, de uma aventura arrebatadora, entusiasmante e profundamente reveladora da complexidade do ser humano. As angústias e os medos das personagens são explorados de uma forma perfeita causando no leitor/espectador um efeito tão apaixonante como o ardor que corrói interiormente os dois amantes. E neste âmbito, Heathcliff contribui de forma decisiva para o carácter emocionalmente opressivo de toda a obra. O amor, o ódio e o medo misturados fazem de si alguém que atemoriza mas ao mesmo tempo lança instintivamente um irresistível poder de sedução sobre as mulheres. Um romance clássico e um filme intemporais a pedirem nova leitura e mais um visionamento.
O Monte dos Vendavais, Três
Apesar de ter sido criada numa época muito distinta da que atravessamos, na personagem de Heathcliff podemos encontrar traços comuns com alguns dos homens de hoje. Os medos, as angústias, a forma instintiva de agir própria de seres de uma natureza imutável pela sociedade em que estão inseridos fazem com que vivam grandes paixões, amores maiores que a vida, mas amores que terminam quase sempre enquanto ainda subsiste o ardor desse amor. E isso porque a dor e a paixão andam quase sempre de mãos dadas e as exigências íntimas e emocionais sobre o outro elemento do casal são de tal ordem que poucas mulheres as conseguem suportar. E ambos partem por caminhos divergentes, feridos no seu âmago, mas de corpos e almas ainda a pulsar de amor e paixão.
Avatar, o filme
O Triunfo do Amor
Ao escrever sobre «Avatar» sinto-me desde logo enredado num conflito entre a razão e a emoção. Porque se em termos emocionais quero ser simpático com a mais recente super-produção de James Cameron, em termos racionais sou obrigado a distinguir o que é verdadeiramente espectacular e o que fica muito aquém daquilo que seria desejável. Porque se «Avatar» é inatacável no plano técnico atingindo uma beleza plástica que transporta o espectador para um espectáculo visual quase sem precedentes, já no aspecto argumental o filme não passa de uma amálgama de lugares-comuns. Dir-se-ia que James Cameron, que para além da realização assinou o guião do filme, se preocupou em demasia com a magia técnica – que também é uma das principais características do cinema – esquecendo um pouco as suas personagens, pouco trabalhadas porque demasiado vistas noutras vertentes, e a história toda ela absolutamente previsível. Ainda assim, o filme tem um indiscutível trunfo na questão argumental: consegue fazer com que o espectador tome partido, com que este entre na história. E esse já é um mérito relevante que joga a seu favor.
Jake Sully (Sam Worthington) é um antigo fuzileiro que se encontra incapacitado numa cadeira de rodas mas que é lançado para uma missão num planeta distante habitado pelos Na’vi substituindo o seu irmão entretanto assassinado. A sua missão, sob as ordens da cientista Grace (Sigourney Weaver), é a de procurar estabelecer relações diplomáticas com o povo indígena assumindo para o conseguir uma transmutação física que o torna igual a estes. Apesar das boas intenções, Jake tem alma de fuzileiro e acaba por estabelecer um acordo com o Coronel Miles (Stephen Lang), um militar empedernido, dando-lhe informações preciosas que irão permitir que este lance um ataque bélico que em momento algum pretendeu evitar. Mas como nestas coisas o coração manda mais que a razão, Jake caba por se apaixonar por Neytiri (Zoë Saldana), uma Na’vi pertencente ao clã dominante. Mas, fatalmente, o choque de civilizações acontece e Jake vai procurar refazer aquilo que ajudou a destruir.
A partir daqui tudo acontece de acordo com os livros, se é que me faço entender. Destaco no entanto dois momentos fundamentais no decorrer do filme. Um deles tem a ver com todo o percurso de autoconhecimento de Jake junto do povo Na’vi. É por esta altura que o amor acontece e é também nesta fase que o espectador começa a identificar-se e a tomar partido por uma civilização muito ligada ao misticismo e à natureza. O outro momento a destacar está ligado ao feroz ataque movido pelo Coronel Miles, ele que é um militar de corpo inteiro, excessivo e verborreico como convém, um brutamontes de carreira. E como não é homem para brincadeiras quer terminar a batalha antes que anoiteça para poder voltar e jantar calmamente em casa. O grau zero em termos de originalidade atinge aqui um ponto alto. É que talvez o filme tivesse um outro tipo de aceitação ao nível intelectual e mesmo emocional se em vez das barbaridades próprias dos líderes militares a tentarem incentivar as suas tropas Miles fosse um homem dividido entre o dever e a razão declamando poesia enquanto mandava chacinar toda uma civilização. Assim não e restam como muito positivas a verdadeira espectacularidade do cinema em 3D e a prestação regular de todo o elenco. Do que não pode restar qualquer dúvida é que este é um filme a ver. No cinema e em 3D. Se assim não for, arrisco mesmo afirmar que será tempo perdido.
«Avatar», de James Cameron, com Sam Worthington, Zoë Saldana, Sigourney Weaver e Stephen Lang
sábado, 19 de Dezembro de 2009
Penetração
Uma das curiosidades do site ‘Sitemeter’ tem a ver com os cibernautas que acedem aos blogues através de pesquisas no Google. Confesso que já aconteceu de tudo aqui no ‘Cartório Mental’ e até já destaquei algumas noutros momentos. Mas esta noite alguém chegou cá perguntando ao Google se no filme «Os Sonhadores» (de Benardo Bertolucci) tinha havido penetração! Bom, é uma curiosidade como qualquer outra e provavelmente uma boa razão para se ver um filme que roda à volta das fantasias eróticas do realizador através da história de três cinéfilos em Paris. Um irmão, uma irmã e o amigo americano. A resposta vem já a seguir num excerto da crítica que escrevi sobre o filme.
«Para aqueles que se sintam constrangidos pela visão de um pénis momentos antes da penetração inaugural numa vagina que sangra e palpita, este talvez seja um filme desaconselhável.»
Não é certamente o caso da pessoa em referência que pesquisou o filme no Google. Se por acaso houver a curiosidade de ler toda a crítica, abaixo fica o ‘link’ de acesso à mesma.
Link: «The Dreamers», de Bernardo Bertolucci, com Michael Pitt, Eva Green e Louis Garrel
sexta-feira, 18 de Dezembro de 2009
Sem comentários
[Simples informação adicional: facilmente identificável, a música é dos RadioHead (Creep), a actriz e o actor são Charlotte Gainsbourg (Gabrielle) e Johnny Depp (um simples desconhecido) e o filme em pano de fundo teve o título em português «…E Viveram Felizes Para Sempre» (2004), de Yvan Attal]
Autor maldito
Doantien Sade, que ficou conhecido para o mundo como o Marquês de Sade, viveu em França nos finais do século dezoito e início do século dezanove. Tendo levado uma vida dedicada à luxúria, Sade, aristocrata e libertino, foi desde sempre um autor maldito. Isto, talvez porque os homens em vez de procurarem compreender o que não entendem preferem imediatamente acusar e condenar, embora, sejamos justos, neste caso se entendam sem dificuldade as razões para tanta aversão. Apesar disso, e das suas práticas, Doantien Sade era um homem de convicções e ideias claras e podia mesmo fazer minhas algumas das palavras que deixou para a posteridade. Sem comentários adjacentes, destaco dois desses pensamentos que se podem ajustar ao conceito com que vou edificando este blogue. Dizia o célebre autor francês que ‘antes de ser um homem da sociedade sou-o da natureza’ e ‘dirijo-me às pessoas capazes de me entenderem, essas podem ler-me sem perigo’. Já não posso concordar com uma das ideias que provavelmente mais contribuíram para a sua própria concepção de vida e se mais não houvesse só por si justificaria todo o efeito negativo e mesmo pejorativo atribuído ao sadismo. Disse Sade que ‘a primeira lei que a natureza lhe impôs foi a de gozar à custa de qualquer um’. Raios o partam.
Hopper, poeta da solidão urbana
Edward Hopper, pintor realista e, com as suas pinturas, um dos maiores poetas da solidão urbana, declarou um dia a um jornalista que ‘a pintura é apenas a gravação de uma emoção’. Não podia concordar mais. E daí, talvez, a intemporalidade daquelas obras que tornaram importais os seus autores. Um pintor, um escritor, um poeta ou qualquer outro criador de arte pode reproduzir o seu tempo e ser influenciado pelo que o rodeia. Mas no seu processo criativo é quase imoral se estiver vinculado a uma ideia de procurar agradar aos outros naquilo que deve sair do mais recôndito de si e do que fez de si um artista, da sua singularidade relativamente ao comum do seu semelhante. E há por aí tanto mercantilismo por parte de alguns fazedores de 'arte' ditos artistas…
Boris Vian, o dinheiro e um provérbio
Há um provérbio popular, muito conhecido, que refere que o dinheiro não traz felicidade. No entanto, estou bem mais de acordo com o genial escritor francês Boris Vian [autor, entre outros, de «A Espuma dos Dias» (1947) e «O Outono em Pequim» (1947)] que escreveu que o dinheiro não traz felicidade àqueles que o não possuem.
quinta-feira, 17 de Dezembro de 2009
Blogues...
Gosto de blogues irreais no sentido em que a realidade é transportada para um cenário de ilusão através das palavras e das imagens. No fundo, tal como acontece no cinema. E, sim, também gosto de alguma introspecção melancólica cujas vagas de emoção fazem ondular o meu barco quando navega à deriva pela blogosfera. Nesse aspecto, nada como o blogue de alguém no singular que se desnuda ao mundo mostrando uma alma que sente, que vibra e se angustia, que se ausenta a espaços para voltar em êxtase ou piorado na sua agonia. Não, não gosto de blogues colectivos escritos a procurar dizer tudo mas que a mim não dizem nada. Gosto de mulheres bonitas. Não aquelas que as capas de revista expõem pomposamente mas sim as que mexem comigo na simplicidade mais sedutora do seu jeito de ser. No seu mundo ajeitam os cabelos, olham distraídas o vazio, andam elegantemente pelas ruas alheias ao que o mundo espera delas mas nunca esquecendo aquilo que sabem poder dar de si ao mundo. Gosto das mulheres que possuem uma marca própria, singular, especial. Como os blogues de que gosto, como se fossem cinema de autor. Gosto de ti, mulher que me lês aches tu que és linda ou somente assim-assim. E gosto das mulheres que me fragilizam pela necessidade de si que fazem crescer em mim. Até na angústia de uma troca de olhares que tarda em acontecer. Gosto de quem admite as suas fraquezas. Mas não de quem o faz em tom de resignação ou como se pedisse desculpa a tudo e todos e também a si próprios. Refiro-me aos que não temem assumir a sua muito humana condição. E isso não é insensatez ou exposição gratuita. É trazer para o nosso dia-a-dia um pouco daquela sensibilidade que nos emociona e arrebata na ficção de um livro ou na fantasia imagética de um filme. E também há blogues assim. Blogues em que a realidade se torna dramática ou leve porque o quis assim o delírio criativo de alguém. São estes os blogues de que gosto.
Blogue novo, loucura velha
Este blogue mudou. No plano estético, para ser mais preciso. Mas não era só isto que eu queria aqui escrever, embora só com a ajuda da psicanálise possa explicar o porquê de estar há quase vinte minutos a olhar para o computador e para o tecto branco cá de casa e do tecto branco cá de casa para o computador. E a única coisa que me sai é mera e insana verborreia. Que é como quem diz que a partir daqui se pretende que a grandiloquência figurativa não seja um obstáculo para que a agitação da vida passe no que por cá se escreve.
[pausa para risos; e para eu poder respirar]
Posto isto, não me atrevo a dizer mais nada nesta minha caminhada rápida para o inferno.
quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009
Everybody Hurts
«De uma amizade pode desistir-se. De um amor não, espera-se pacientemente que ele desista de nós.»
Autor Desconhecido
terça-feira, 15 de Dezembro de 2009
Fotos com sentido
Dir-se-ia que este é um ‘post’ machista e de mera exploração visual do corpo desnudado de uma mulher. Nada de mais errado. Iga A., a senhora da foto, é modelo fotográfico profissional. E eu gosto muito de a ver trabalhar.
segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009
Allen Stewart Konigsberg

Ou seja, Woody Allen.
Sobre o seu «A Rosa Púrpura do Cairo» (1985), o cineasta declarou ter-se limitado a dar ênfase aos “encantos do imaginário em oposição à dor de viver”. Woody Allen é o realizador por excelência dos filmes protagonizados por anti-heróis com grandes dificuldades em adaptar-se ao mundo sobrevivendo à realidade enfrentando-a através de uma atitude de gozo de cariz masoquista. Mas o admirável no mais nova-iorquino realizador de cinema é a sua espantosa capacidade de fazer comédia a partir de conjunturas aparentemente banais do quotidiano dos homens e das mulheres mas que são afinal o ponto de partida para situações bem dramáticas na vida real.
Incomunicabilidade
Não são poucas as vezes em que procuro descrever uma visão terna do mundo e acabo a achar que mais não consegui que apresentar aos outros um olhar desolado sobre o que me rodeia. Chama-se a isto incomunicabilidade.
As cores com que me pintam
Algumas pessoas que me lêem no blogue já me apelidaram de masoquista, reflexivo, culto, maduro (no sentido de parecer mais velho pelo que escrevo que aquilo que realmente sou), perspicaz, sinuoso, sarcástico, irónico, soturno, interessante e, até, imagine-se, inteligente. Mas também pseudo-intelectual, grosso e maçudo. Pessoas que me conhecem de há muito acham que sou de trato difícil, por vezes duro, obsessivo, exagerado, meio louco (escondo deles a outra metade da loucura), apaixonado, idealista, observador, intimidador, precipitado e, em dias de Sol, divertido. Aqueles que me conhecem pouco – ou de há pouco – vêem-me como um bom modelo de gajo distante, arrogante, formal e esquizofrénico. Sei que é de uma impossibilidade quase científica dar crédito a isto mas também já houve (ainda haverá?) quem me achasse fisicamente atraente (vestido à civil) ou simplesmente charmoso (de fato e gravata) ou ainda – a esmagadora maioria, temo – quem me olhasse com uma indiferença fatal.
No fio da navalha
Há dias alguém me perguntava se eu era masoquista. Respondi que não. Insatisfeita com a minha resposta a minha companheira de conversa insistiu, 'desculpa lá, mas se não és fazes tudo por parecê-lo'. Respondi-lhe pacientemente pois tenho dias em que fico assim mesmo, pachorrento, disposto a tudo, até a que me espetem uma faca e remexam sem piedade a lâmina afiada na minha carne. É que não, não se trata de masoquismo ou sequer de um qualquer gosto estranho pelo sofrimento. Acontece apenas que prefiro viver experiências amargas tentando a felicidade de que tanto ouço falar mas cujo sabor apenas descobri circunstancialmente, a viver numa intragável modorra como se não passasse de um corpo anestesiado. Chamou-me louco. Não dei importância ao epíteto mas também já não lhe expliquei que esta minha atitude perante a vida teve o condão de me atribuir algum estoicismo na hora de arcar com novo e rude golpe. Qual herói de pés de barro, tem dias até em que me comparo aos exércitos desesperançados que numa espécie de loucura consciente caminham sem hesitar na direcção de uma morte anunciada.
domingo, 13 de Dezembro de 2009
A velhice
Se por infelicidade minha chegar à idade madura, estou absolutamente convicto de que serei exactamente como o retratado de Lucian Freud que este ‘post’ ilustra: de uma dignidade e postura aparentemente irrepreensíveis, mas, em paralelo, carregando no olhar uma amargura dolorosa e todo o rol de revezes da fortuna que me endureceram e permitiram lá chegar me estará marcado no rosto em forma de rugas.
Já não há mentiras piedosas?
Há dias alguém que me é importante em conversa comigo acabou com a pouca réstia de orgulho que ainda mantinha intacta ao dizer-me claramente ‘não, Lucas, tu não és um sobredotado’. Não que alguma vez me tivesse achado intelectualmente sobredotado ou quisesse sequer sê-lo. Nesse aspecto sou um simples e muito esforçado operário. Mas confesso que a rápida e genuína frontalidade da constatação como se de uma acusação se tratasse me deixou incomodado. Ensaiei um pouco vigoroso protesto, pedi desconto de tempo mas até agora ainda não encontrei refutação possível a tão incontestável verdade.
Futilidades
Nunca gostei de me ver em fotografias. Em tempos pensava que o problema estava na minha difícil relação com as máquinas fotográficas. Depois passei a dar a explicação que um dia ouvi de alguém bem mais conhecedor dos povos que eu de que uma tribo índia da América do Norte defendia que as fotografias nos roubam a alma. De há uns tempos para cá descobri que o problema das fotografias que me tiram está no facto de se parecerem demasiado com o fotografado. Já deixei de ter espelhos cá em casa. Antes mentiam-me descaradamente, depois passaram a confrontar-me com a impiedosa verdade.
sábado, 12 de Dezembro de 2009
A metamorfose
Adoravas ir àquele restaurante e começaste a ver filmes que antes não vias. Percorrias determinadas ruas da cidade escurecida e esboçavas um sorriso de felicidade. Quando regressavas a casa olhavas para a tua estante e procuravas nela aqueles livros. Antes de adormeceres olhavas para o visor do teu telemóvel em busca de algo que sabes bem o quê. De repente tudo isso deixou de fazer sentido para ti. Sabes bem que sim, por muito que procures enganar-te com a ilusão de uma emoção que estás longe de sentir.
Vida pessoal
Uma das coisas mais intrigantes para mim está directamente relacionada com a não declarada dicotomia entre vida pessoal e vida social. Não sejamos ingénuos, toda a nossa vida pessoal tem que estar de acordo com o socialmente aceite. Se, pelo contrário, resolvemos esquecer o que nos rodeia e virarmo-nos para nós mesmos imediatamente somos rotulados de anormais, ou, para não ser tão duro, de esquisitos. Há quem não aguente a pressão e resolva viver pelos padrões dos outros. Mesmo que para isso sofra e faça sofrer.
sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009
I'm the poet and you're my muse
[«The Doors», de Oliver Stone (1991), o fabuloso trailer]
«I believe in a long prolonged derangement of the senses to attain the unknown... Although I live in the subconscious, our pale reason hides the infinite from us.»
Jim Morrison
quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009
Aniversário

O aniversário já se comemorava na Grécia antiga e o seu povo associava a cada dia de anos o renascimento de um espírito protector. Os romanos também comemoravam os seus aniversários. A minha preferência foi sempre para o povo romano conquistador e boémio em detrimento do grego escultor e filósofo embora a sua Afrodite tenha desde sempre exercido sobre mim um enorme poder de sedução. Parabéns A.M.
terça-feira, 8 de Dezembro de 2009
O absurdo da existência

Descontente com a vida, solitário e desenraizado, homem fisicamente feio e perdido no que considera o absurdo da existência, desgastado pela dúvida e pela consciência de si, historiador e biógrafo, assim descreve Jean-Paul Sartre a personagem principal do seu livro «A Náusea» (1938). Embora experimente alguma relutância ao confessá-lo, admito ter dias em que me sinto precisamente como Antoine Roquentin, o menino de que aqui se fala.
As tuas mãos
Adormeço e vens ter comigo no meu sonho. Outras noites. Tantas noites. Esta noite.
Esta noite estavas algures entre um semáforo amarelo, o vermelho que se acendeu, uma fila de carros em desespero, um viaduto imundo de papéis enegrecidos, graffitis, cobertores feitos de jornais com notícias a cheirar a mofo, um jeito sem jeito de cama, um abrigo improvisado, gente sem eira nem beira. Gente que nos olhava .
E as mãos.
As tuas mãos.
Estendeste-mas com um sorriso nos lábios feito de gretas de saudade. No gesto, no teu gesto, lembrei-me do sorriso, do teu sorriso sem gretas, do sorriso de sangue vermelho vivo e quente da paixão que nos aquecia os corpos. A cidade que se ergue, romântica, num sopapo de terra a olhar o rio. As águas que ao longo dela, da cidade no sopapo de tera, correm a beijar o mar. Lá, no cruzamento circular das estradas, das ruas, olhámo-nos. Beijaste-me. Voltaste. Mas não, nunca te foste. E és tu por aqui, agora, és tu a inundar de calor o meu sonho. Olhei-te de novo, sorri. Sim, és tu.
As mãos esticadas, as tuas mãos, as mãos esticadas a clamar pelas minhas.
O semáforo voltou ao verde, os motores dos carros roncaram e as nossas mãos ali. Os olhos, os teus, os olhos que mantêm o castanho vivo que agora já não é de esperança. Sim, porque em ti o verde de esperança era-o nos teus olhos castanhos. Olhos castanhos de esperança. O semáforo. Amarelo. Vermelho. O desespero no ruído dos motores. E nós ali. És linda. Lembras-te daquela tarde? Viste-me ao longe mas não me gritaste promessas. Beijaste-me apenas. Com doçura, longamente. E as tuas mãos ali. Nas minhas mãos, ali, as tuas mãos. Nas minhas mãos.
Olhaste-me com timidez, reconheci a tristeza no teu olhar.
O semáforo de novo. O verde, acendeu-se o verde, os motores roncaram e tu correste dali, sumiste-te do meu sonho para dentro da fumaceira no trânsito.
Acordo. Olho as minhas mãos esticadas que já não encontram as tuas, as tuas mãos, as tuas mãos nas minhas mãos.
Trechos da minha vida militar – Capítulo Primeiro
Nunca viajei tanto de comboio como quando cumpri o serviço militar. Certo dia o comboio travou bruscamente e parti um dente ao bater contra a porta dos asseios de uma carruagem muito pouco asseada. Esse triste episódio da minha vida militar teve duas consequências imediatas: fiquei a saber que andar de comboio não era bom para os dentes e deixei de confiar nos travões daquelas engenhocas sobre carris.
Trechos da minha vida militar – Capítulo Segundo
Fiz a recruta em Lisboa. À chegada ao quartel, no meu primeiro dia de tropa fui mal recebido por um mal-encarado tenente com ar de que todos lhe devem e ninguém lhe paga. Depressa percebi que gostava de cinema musculado e se julgava militar das SS nazis. Berrou-me e estranhei que o fizesse em português e não em alemão como seria natural. Soldado, deite-se, está cercado. Desconfiado olhei o tipo de soslaio e não mexi um músculo do corpo. O outro continuava a bramir. Como estava a chover pensei que era a isso que a ave rara se referia: estava cercado pela chuva. Como esta ameaçava não parar, fiz conversa e perguntei ao senhor tenente se sabia quanto tempo ia durar o clima invernoso. Parecendo não ter gostado da pergunta o oficial ajoelhou-se e começou aos tiros para o ar. Ajoelhei-me a seu lado e fingi disparar também. Atirei até à última munição.
Trechos da minha vida militar – Capítulo Terceiro
A minha semana de campo, na recruta, foi passada na Serra da Carregueira. Pelas árvores peladas percebia-se um Outono cerrado e o vento murmurava canções de embalar. Embalados também nós com dezenas de quilos de material bélico às costas, assentámos arraiais numa encosta virada para nenhures. Certamente que para me incentivar alguém me segredou que em exercícios anteriores um militar como nós tinha batido a bota num obtuso acidente com uma granada. Um descuido tinha feito explodir o artefacto junto à cara do pobre rapaz e a sua cabeça esmigalhada acabara transportada para a morgue no interior de um capacete. Tinha acabado de acontecer já que o acaso se dera sete anos atrás.
Nessa noite trovejou e choveu a cântaros e eu e mais dois dormimos numa tenda apenas com um cobertor a cobrir-nos e a água a escorrer-nos pelo corpo desde as fardas ensopadas. Estava agradável mas dormi apenas duas horas. Atribuí o facto à emoção do momento.
Trechos da minha vida militar – Capítulo Quarto
Acabei o período de magala com suave distinção depois de muito pintar a manta. Começáramos vinte e três em todo o pelotão mas acabámos apenas cerca de vinte e dois. Cerca de vinte e dois porque um de nós terminou incompleto já que perdera um pé num arreliador incidente com uma Berliet, esperando ainda no hospital o regresso a casa. E um outro, madeirense, conseguira ser deportado para a terra mais do Alberto João que dele.
Tive pena quando aquilo acabou. Quando um tipo começa a habituar-se às coisas agradáveis elas acabam de imediato. Ainda estive para dizer das boas ao comandante do pelotão mas achei que o sacana não iria compreender. Era um daqueles tipos com cabeça de martelo, diz-se, e nostalgia da guerra de África onde nunca tinha posto os pés. Lia muito bem, precisava apenas de aprender a compreender o que lia. Bradou-me um louvor à despedida que aproveitei prontamente para trocar por uma barra de chocolate na estação de Stª Apolónia.
segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009
Medo, morte...
Escrevi há pouco, algures [sei muito bem onde] que um dos meus maiores medos é que a morte me surja como uma bênção. Em contraponto, gostaria que alguém ainda possa lamentar a minha tragédia pessoal quando ela ocorrer comigo. Por favor, levem-me a sério.
Marta
[Ou, histórias de ficção de gosto duvidoso. E que já chateiam. Até a mim que as escrevo.]
Marta tinha uns olhos meigos, cintilantes, um sorriso matreiro que provocava sentimentos fortes nos homens. Nasceu no seio de uma família pobre, a mãe vendia peixe na Praça de Alcântara e o pai era funcionário camarário da recolha do lixo. Graças à bondade de uma família abastada do Porto, viviam, os três e um gato preto, gordo e pachorrento, numas águas furtadas de um prédio perto da Praça de Luís de Camões já que os ilustres nortenhos, negociantes de arte, ocupavam o andar de baixo mas vinham pouco a Lisboa e precisavam quem arejasse e cuidasse do apartamento.
Marta desde jovem que tinha o hábito de frequentar locais pouco aconselháveis do Cais do Sodré. Escondia-se no escuro e deleitava-se a mirar as mulheres da vida a aviarem clientes ocasionais que os barcos atracados no Tejo traziam de longe. Depois de ter tido o primeiro homem aos 15 anos, um marinheiro americano de meia idade a fazer-se passar por almirante e a conseguir os seus intentos carnais a troco da promessa de a levar consigo para o outro lado do Atlântico, percebeu que caíra numa teia de enganos e passou a dar-se libidinosamente a todos quantos a desejavam odiando cada um deles e a si mais e mais por cada vez que se entregava. Um dia foi apanhada no meio de uma rixa entre estivadores e teve apenas tempo para fugir e refugiar-se no calor de uma bala que se lhe alojou carinhosamente em pleno coração. Tinha apenas 19 anos e um tremendo desentendimento com a vida.
domingo, 6 de Dezembro de 2009
Diário de um Killer Sentimental, Um
«A detonação foi seca e curta. É assim que ladram os Colt de 38. A minha pobre gata francesa tremia de olhos muito abertos. Amava-a. Abracei-a contra mim amaldiçoando as malditas armadilhas da vida.»
Diário de um Killer Sentimental, Dois

O amor é, por si só, razão de viver. Mas, quando uma relação entra em crise, pode provocar uma angústia sentimental de tal ordem que torna incapacitante aquele que sofre dos chamados males de amor. Apesar de curta, uma das histórias mais bem contadas sobre este estado de alma descreve uma das mais trágicas ironias da vida num género tido como menor, o policial. A obra pertence ao escritor de origem chilena, Luís Sepúlveda, e intitula-se «Diário de Um Killer Sentimental» [1996].
Um assassino a soldo, competente e muito cuidadoso, comete um erro imperdoável: apaixona-se por uma linda mulher francesa. A relação entra em colapso quando o profissional está a meio de um complexo e muito importante trabalho, o que o vai levar a abandonar a profissão mais cedo que aquilo que planeara. Mas a sua última missão espelha o quão ingrata pode ser a vida de um homem. Ainda para mais quando esse homem é um assassino profissional que não mistura trabalho com sentimentos.
sábado, 5 de Dezembro de 2009
Maledicência
Há dias alguém a querer conquistar a minha confiança pela via errada pretendeu contar-me que fulano tinha dito mal de mim. Não quis saber quem nem o quê. Mas acreditei que fosse verdade. Talvez se a coisa fosse ao contrário, se ela tivesse desejado dar-me a notícia de que alguém tinha dito bem de mim, eu não acreditasse. As pessoas não perdem o seu precioso tempo a dizer bem umas das outras.
A voz do povo
Há um ditado português que reclama ser um facto «que é pelas costas dos outros que vemos as nossas». Aprendi às minhas custas o verdadeiro significado desta expressão. Nas aulas de RPM, com o passar dos minutos na fileira da minha frente as camisolas dos abnegados atletas de sala, e meus ilustres camaradas, começam a ficar encharcadas da transpiração causada pelo esforço honesto. Não preciso de as olhar para perceber que nas minhas costas o cenário é exactamente o mesmo.
Blogosfera
Dou um giro pela blogosfera. Nada de novo. Jornalistas a fazerem política, políticos comentadores, vítimas de amores desavindos, gente apaixonada, desespero e euforia, e, entre muitos e muitos blogues interessantes, há até quem conte histórias pretendendo falar verdade e quem conte a verdade disfarçando-a nas histórias que conta. Nada de grave. Lembro-me até de Nietzsche que alardeava que «a verdadeira amizade sucedia sem acontecer a proximidade» e do inesquecível Pinheiro de Azevedo, impassível perante o desespero de todos quantos o rodeavam, a gritar que «o povo é sereno, é só fumaça».
sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009
Balada triste ao infortúnio

Conheço um conto, uma história de gentes do povo gravada no papel. Um conto que gostaria tivesse sido imaginado, delineado pela mente de alguém. Nesta lenda de outrora, narra-se o drama de um campesino que vivia feliz na sua bucólica e bem tratada quinta. Feliz, vivia com Maria, a sua companheira. Conta-se o encontro destes com um indivíduo cosmopolita que pela quinta um dia apareceu dando ares aristocráticos, alardeando ser um conhecedor da vida e a quem a vida certamente também conhecia bem. Um viajante de cabelos ao vento no seu ágil descapotável vermelho.
O nosso campesino, sendo tão delicado nos seus gestos rudes de aldeão, de agricultor, e apesar da sua voz grossa soar tão amável e de ser um homem bom, ou por ser um homem bom, é tragicamente ingénuo perante a matreirice. E Maria, a sua companheira, que se move com a graça que advém da singela genuinidade da mulher para quem o mundo não era muito mais que o marido, a quinta e a praça onde vendiam a sua produção é uma esposa dedicada e tudo isso lhe chegava. O seu olhar brilhava, a sua voz parecia perder-se naqueles campos cultivados melodiosa como o cântico das aves na Primavera. Mas eis que surgiu o homem da cidade. Ah, aquela sedutora, maldita e altiva pose! Ah, o olhar vivido, a voz insinuante e bem colocada. E para Maria surge então a fantasia de um mundo novo, uma perturbação desconhecida, uma avalanche de novos sentimentos
Este é um conto triste. Uma história que vive daquela tristeza que não humedece a vista mas que enregela a alma. Existências onde se trilham caminhos ligados à mentira e à traição, mas onde, estranhamente, é de verdade e de pureza adulterada que ela, a história, o conto, a lenda, nos fala. De uma verdade cuja reposição vale a morte de um homem. Preço alto a pagar pela verdade, dir-se-á. E é assim, através da simplicidade humana extraída da complexidade dos acontecimentos que se lhe sobrepõem, que acontece a vida.
Em suma, esta é a história que jamais procuramos descobrir mas que tantas vezes acabamos por encontrar. E é nesta estranheza que seguimos enlevados pela impetuosidade do drama. De tal forma assim é que a certa altura sentimo-nos a divagar, a viajar sem rumo definido nem retorno possível. Sentimos que partimos para um qualquer lugar sem dele jamais pensarmos voltar. No fim desta história nostálgica, amarga, vemos Maria a regressar. Regressa só, desamparada, atraiçoada, à terra que a viu partir. Infelizmente, espera-a o vazio. Esperam-na ondas que persistem, que nunca param de bater. Mas já não a esperam homens que resistem, porque esses resistiram até morrer.
quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009
Simplesmente mulher

Os dias passavam e a saudade aumentava. Hoje reviu-a finalmente. Estava linda, os cabelos soltos, sorriso estampado no rosto, subia degrau a degrau as escadas que a levavam até ele. Não, não era a ex-mulher de um polícia de Memphis afogado no álcool por lhe ter dado a provar o sabor do amor. Não, não era uma mulher de causas casada com um diplomata de carreira. E não, não morreu algures em África e ele, o fiel jardineiro, de amor morrera por ela. Também não era uma milionária excêntrica que dividiu os irmãos Bloom.
Chegou já ofegante junto a si. Sentiu nela a felicidade de ter conseguido chegar junto a si. Mentiu-lhe à pergunta dele. Mas os olhos brilhavam-lhe e sorriu ao fazê-lo denunciando-se voluntariamente. E ele sorriu com ela. Que bom era revê-la, respirar fundo a seu lado, perder o fôlego, deixar que as gotas de suor escorressem pelos rostos de ambos enquanto as pernas iam perdendo as forças em uníssono. Não, ela não se chama Abigail, Sue Lynne, Tessa Quayle ou simplesmente... Rachel.
Venham mais cinco, duma assentada que eu pago já
Como bem dizia ao fim do dia um conhecido meu que raramente diz uma frase sem incluir nela um palavrão, hoje esteve um dia de merda, choveu o dia todo. Não uma chuva miudinha, constante, mas autênticos aguaceiros. Entrei no Café Paris, estabelecimento onde me desloco com alguma regularidade, e lá estava ele, aquele homem, como é hábito, invariavelmente de cerveja nas mãos, gole atrás de gole, um sorriso nos lábios secos a franzir as faces já de si enrugadas, nova cerveja, novo gole e o sorriso, o mesmo sorriso de sempre.
Antes não a tivesse ouvido de um familiar, mas conheço a história que marcou a vida daquele homem e interrogo-me sobre o porquê do sorriso, daquele sorriso, do sorriso indiferente a bailar-lhe nos lábios. Por que sorri aquele sujeito envelhecido, que, resignado, parece esperar apenas o passar dos dias?
Tudo se passou decorria o ano de 1965. Para vocês se situarem foi o ano em que estreou nos cinemas o «Dr. Jivago», de David Lean, ao qual ainda há dias me referi, foi também um ano antes da inauguração da Ponte de Salazar, hoje rebaptizada. Estava-se a 6 de Dezembro e para ele o dia começara mal. Ao participar num torneio de xadrez, fora derrotado por um invisual. Isto, apesar de lhe ter dado bastante luta. Pensou que ficaria para sempre com o estigma colado a si, achou que era um mau presságio, mas estava então muito longe de imaginar os acontecimentos do entardecer. Chamara-o o pai, entretanto falecido, com ar sofrido a fazer adivinhar o pior. Luís, tens que ser forte, dissera-lhe. E o Luís fez das fraquezas forças, encheu o peito de ar como se se preparasse para levar um murro, procurou ser forte como aconselhado pelo pai e esperou por aquilo que este tinha para lhe dizer. A Lucinda deu à luz um menino – fez uma pausa. – Mas ocorreram algumas irregularidades, continuou. Depois, parou um pouco para tomar fôlego e perante a ansiedade do filho disparou as palavras que lhe retirariam o sabor da vida. A tua mulher não aguentou o parto. O Luís ficara impávido, apalermado. E foi então que o pai apertou novamente o gatilho, de rosto molhado do suor que lhe escorria da testa, e assentou nova e grave ferida no pobre filho. O bebé também não sobreviveu. Nesse instante, o corpo do Luís perdeu vitalidade e foi caindo lentamente até ao solo.
Durante algumas semanas ninguém viu o Luís pelas redondezas tendo faltado inclusivamente aos funerais da mulher e do filho, o que na altura tomou foros de escândalo. Até que uma manhã voltou tal como tinha desaparecido, sem aviso. Nesse dia já transportava nos lábios o sorriso que hoje todos quantos frequentam o Café Paris conhecem. E foi também desde essa data que se tornou um homem sem ambições. Não se lhe conheceu outra mulher na vida e a sua maior satisfação é ficar sentado ao balcão da tasca a beber cerveja, a emborcá-la garganta abaixo, a fazer valer a razão de sempre para se embebedar. Num impulso, sentei-me ao seu lado e pedi uma cerveja também para mim. Acabei por ficar cerca de duas horas, cerveja atrás de cerveja, até sentir a cabeça a andar à roda, as garrafas a multiplicarem-se como se por magia. Foi então que senti um respeito enorme pelo homem ao meu lado a enfrascar-se.
Afinal ele tinha um motivo para beber. Eu não.










